Nós não podemos amar, filho. O amor é a mais carnal das ilusões. Amar é possuir, escuta. E o que possui quem ama? O corpo? Para possuir seria preciso tornar nossa a sua matéria, comê-lo, incluí-lo em nós...E essa impossiblidade seria temporária, porque o nosso próprio corpo passa e se transforma, porque nós não possuimos o nosso corpo. (....)
Possuímos a alma? Ouve-me em silêncio: Nós não a possuímos. Nem a nossa alma é nossa sequer. (...)
Que possuímos? que possuímos? Que nos leva a amar? A beleza? E nós possuímo-la amando? A mais feroz e dominadora posse de um corpo o que possui nele? Nem o corpo, nem a alma, nem a beleza sequer. A posse de um corpo lindo não abraça a beleza, abraça a carne celulada e gordurosa; o beijo não toca na beleza da boca, mas na carne húmida dos lábios perecíveis e mucosas; (...)
Desenganemo-nos até disto. Nós nem as nossas sensações possuímos. Não pela memória [...]. A memória, afinal, é a sensação do passado...E toda a sensação é uma ilusão...
- Escuta-me, escuta-me sempre. Escuta-me e não olhes, pela janela aberta, a plana outra margem do rio, nem o crepúsculo, nem esse silvio de um comboio  que corta o longe vago. - Escuta-me em silêncio...
Nós não possuimos as nossas sensações...Nós não nos possuímos nelas...
Bernardo Soares 363

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