Escolher comer carne ou peixe é uma decisão gastronómica mas, insistimos, também política. É um facto, pois, que a cidade virou as costas a um conjunto de decisões que assumiu serem individuais. Mas pensemos nas preocupações sanitárias e alimentares? Como entender, por exemplo, a existência de vacinas gratuitas, e não a existência de uma alimentação mínima gratuita?
Poderás morrer por insuficiente alimentação, mas não por causa de determinadas doenças. Em suma, a saúde política impede que morras de tuberculose (existe a vacina gratuita), mas não impede que morras de fome. A fome vista como, apesar de tudo, não contagiante.
Gonçalo M. Tavares


O Tempo, que envelhece as faces e os cabelos, envelhece também, mas mais depressa ainda, as afeições violentas. A maioria da gente, porque é estúpida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contraiu o hábito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As criaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade dessa ilusão, porque nem podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por ele a estima, ou a gratidão, que ele deixou. Estas coisas fazem sofrer, mas o sofrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como não hão de passar o amor e a dor, e todas as mais coisas, que não são mais que partes da vida?
Fernando Pessoa - Carta a Ophélia de Queiroz


Damián González, La Puerta, 2010

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